quarta-feira, 17 de maio de 2017

180.º aniversário da igreja de Pardilhó




A actual igreja de Pardilhó veio substituir outra mais antiga que ficava um pouco a poente, na curva onde se vira para a Quinta do Rezende, onde ainda se encontra uma pedra de granito com a data de 1740 inscrita, juntamente com as chaves de S. Pedro. Essa primeira igreja ter-se-á edificado no século XVII, possivelmente sendo a ampliação de uma mais antiga capela de S. Pedro.

Em 1798 iniciaram-se esforços para obter os fundos necessários à construção da actual igreja, que se concretizou num terreno de pinhal ligeiramente elevado, próximo da anterior. A aquisição desse terreno pela Confraria do Santíssimo Sacramento, a entrega da obra ao empreiteiro e o início da construção ocorreram no ano de 1812. Os trabalhos prolongaram-se no tempo, devido a vicissitudes várias, passando pelas mãos de dois empreiteiros diferentes: António da Silva, de Pardilhó, e Manuel Lourenço Afonso, de Avanca.

Terá sido no dia de S. Pedro de 1835, faz agora exactamente 180 anos, que foi inaugurada a actual igreja de Pardilhó, a fazer fé no testemunho inscrito pelo pároco de então no Livro do Registo Paroquial: «Baptizados na Igreja Nova desta Freguezia de S. Pedro de Pardilhó em q se Celebrou pela p.ra vez em dia de S. Pedro de 1835 são os seguintes» (Arquivo Distrital de Aveiro, Registos Paroquiais de Pardilhó, Lv. 13, fl. 55v). Segue-se no livro o assento de dois baptismos, realizados nesse mesmo dia, os primeiros na actual igreja. Embora continuassem obras na igreja durante anos, pode-se dizer que a sua inauguração ocorreu no dia de S. Pedro de 1835.

Dias depois, em 2 de Julho de 1835, celebrou-se o primeiro casamento na nova igreja. Já os funerais, que antes eram feitos na igreja velha ou na capela de Santo António, foram pela primeira vez realizados no cemitério em 28 de Julho de 1835, dando execução à nova lei que instituiu essa mudança. Assim, a nova igreja não chegou a acolher enterramentos, embora tenha sido construída preparada para isso, sendo hoje das poucas que mantém intocados os seus taburnos, isto é, o piso dividido em sepulturas. O primeiro cemitério de Pardilhó, que durou cerca de um século, ocupava o espaço entre a antiga e a actual igrejas, no que hoje chamamos o jardim de baixo.

Na imagem que aqui se reproduz vê-se o centro da freguesia de Pardilhó tal como era no ano de 1892, estando à esquerda a antiga capela de Santo António (demolida em 1926), a igreja actual inaugurada como se disse em 1835, entre ambos os templos o celeiro do dízimo do Mosteiro de Arouca (que deixou de lhe pertencer em 1848 e foi demolido em 1906) e a poente o cemitério velho, que durou entre 1835 e 1938, quando foram removidas as últimas ossadas. À direita lê-se uma referência a “Casa d’Escola”, que é a escola do Pe. José Lopes Ramos, onde fez a instrução primária Egas Moniz. A imagem provém da planta do “Lanço de Estrada de Areia do Gonde ao Bunheiro” (1892), um projecto para reforma e alargamento da estrada, até aí um caminho apertado cheio de curvas, que se encontra no Arquivo Municipal de Estarreja.

Posteriormente a igreja de Pardilhó teve obras em várias ocasiões, de reparo ou melhorias, sendo de referir as ocorridas entre 1967 e 1969, dando-lhe o aspecto que hoje tem, por dentro e por fora.

De tudo isto se trata com mais pormenor no meu livro “História do Centro Paroquial e da Paróquia de Pardilhó”, editado em 2012 pelo Centro Paroquial de Pardilhó, que ainda o tem à venda, revertendo todo o produto da venda para a obra social do Centro Paroquial.

In O Concelho de Estarreja, n.º 4275, 23.6.2015, p. 3

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Os concelhos de Estarreja e Murtosa no século XIII


Embora o mais antigo documento onde é referido o nome de Antuã respeite ao ano de 569, só a partir do século XIII se começa a conhecer razoavelmente (ainda que com muitas limitações) o espaço onde hoje se situam os concelhos de Estarreja e Murtosa. Nessa época a laguna de Aveiro e terras circundantes pouco difeririam da actualidade, faltando apenas formar parte do cordão litoral. Poucas centenas de pessoas viveriam em habitações colmadas dispersas. Parece contudo que as terras alagadiças do Sul marinhão e do Sul do Antuã atraíam um crescente número de colonos, com a vantagem das boas acessibilidades proporcionadas pela foz do Vouga.

Onde hoje estão Estarreja e Murtosa existia uma manta de retalhos de poderes e possuidores de terras. Os dois principais espaços integravam-se no julgado de Antuã (que D. Afonso III coutou e entregou em 1257 ao Mosteiro de Arouca) e no julgado de Figueiredo do Rei (Santiais, parte de Salreu, Canelas e Fermelã). Eram poderes menos significativos o do julgado da Feira (do Rei, a Norte de Avanca), do julgado de Pardelhas (que se autonomizou da Feira e cujas terras pertenciam ao Mosteiro de Vila Cova), e do julgado de Cabanões (que se estendia para Sul pela Gelfa). Diversos concelhos rurais foram surgindo (Antuã, Fermelã, Veiros e Pardelhas), parte deles efémeros.

Na posse das terras encontravam-se, além do Rei, duas honras (a de Canelas, abrangendo Fermelã, e a do Roxico), o couto de Antuã (do Mosteiro de Arouca), vários casais de mosteiros (Grijó, Santa Cruz de Coimbra, Pedroso, Paço de Sousa, Vila Cova de Sandim, e Cedofeita), bens alodiais de herdadores (em Santiais, Canelas e Fermelã) e três póvoas (Veiros, do Carvalhal em Santiais e Ameal em Salreu). A contratualização da exploração das terras era titulada por aforamentos, boa parte dos quais colectivos, fomentando a adesão de novos povoadores. Pagava-se a título de renda, nos mais dos casos, a quarta ou a quinta parte da produção (pão, vinho e linho), e em casos mais raros e tardios a sexta ou a oitava parte. Os arroteamentos contavam-se também entre as terras de renda mais baixa, tendo em vista a expansão do espaço cultivado. Á renda parciária acrescia uma renda acessória, composta por pequenas quantidades certas de bens, designadas por direituras. Diferentes sectores compunham a economia local, que incluía a agricultura, a pecuária, a caça, a pesca e a salicultura.

Em paralelo existia o poder secular da Igreja, representado pelas dioceses do Porto e de Coimbra, que estabeleceram em definitivo a sua fronteira no curso do rio Antuã. A Norte estavam as extensas paróquias de Avanca e Beduído, e a Sul as de Salreu e Fermelã. O direito de padroado destas igrejas, com elevado interesse material, foi sendo avocado pelo Rei, que depois o redistribuiu.

Boa parte destas realidades constituíram-se no século XIII e duraram por séculos, nalguns casos até às reformas liberais do século XIX.


In O Jornal de Estarreja, n.º 4728, 9.1.2015, p. 12

domingo, 22 de novembro de 2015

A primeira referência escrita a Salreu (1076/1106)

A actual freguesia de Salreu tem o seu nome pela primeira vez escrito num documento que lhe é exclusivamente dedicado. Na verdade são dois documentos, mais ou menos similares no seu conteúdo, mas com datas diferentes: uma inscrição no Livro Preto da Sé de Coimbra (1076)[1], e um pergaminho autónomo do Cabido da Sé de Coimbra (1106)[2]. Um será a cópia do outro, não sendo claro qual deles possui a data correcta, como aliás já concluiu um investigador local[3].

Aparte da polémica da data, com uma significativa diferença de 30 anos, existe um contexto de época do nosso país que é preciso notar. O fim do século X ficou marcado pela destruição causada por Almançor e consequente recuo temporário da fronteira cristã, o que no início do século XI facilitou o começo de arbitrariedades de seculares nos bens das igrejas[4]. Durante o século X e principalmente no século XI produziram-se diversos documentos, que constituem as primeiras referências escritas a algumas das actuais freguesias e lugares do concelho de Estarreja e terras vizinhas. A fronteira cristã foi-se dilatando e a reconquista definitiva de Coimbra ocorreu em 1064. Para trás ficavam as terras recém-reconquistadas aos muçulmanos, boa parte das quais nas mãos de presores, que em muitos casos as transmitiram hereditariamente aos seus sucessores. Entre os protagonistas cristãos da Reconquista corria ainda o sangue e a memória da ascendência goda, proveniente dos antigos reinos Visigodo e Suevo. É pois sem surpresa que sejam frequentemente de origem germânica os nomes de pessoas documentados deste período.

No caso em análise quatro herdadores da villa de Sarleu devolveram à igreja local, dedicada a S. Martinho, os passais que até então possuíram. Levantam-se aqui várias questões, às quais importa dar alguma atenção. Primeiro notar que herdadores são proprietários rurais, cuja posse da terra foi obtida por herança. Em segundo lugar a restituição dos passais pelo grupo sugere que sejam também os padroeiros da igreja, sendo este padroado obtido por sucessão hereditária. Em terceiro, o nome da localidade que é Sarleu e não Salreu. Enfim os nomes de origem germânica dos herdadores (Gonçalo Soares, Mendo Oseviz, outro Gonçalo Soares e Ero Soares), que são apenas quatro e destes só três partilhando o mesmo patronímico (Soares = filhos de Soeiro), talvez todos netos dalgum presor que obteve a aquisição originária das terras que eles agora possuíam.

Parte destas questões merece uma resposta autónoma, atento o seu particularismo medieval, que ajude a compreender em toda a sua dimensão o conteúdo do documento, com a mais antiga referência escrita a Salreu. É o que se passa com o topónimo, primitivamente grafado Sarleu, e com a noção do que são passais, herdadores, e herdeiros/naturais/padroeiros. Aproveitamos a oportunidade de se tratar de passais para referir brevemente os passais das restantes freguesias de Estarreja e Murtosa.

TOPÓNIMO SALREU

A generalidade das primeiras menções escritas a Salreu, lugar e freguesia do actual concelho de Estarreja, registam o topónimo como Sarleu (passais em 1076/1106, rol de igrejas em 1220-1238, doação do couto de Antuã em 1257, aforamento e Inquirições em 1284, referência à paróquia em 1279), com excepção para as Inquirições de 1220[5].

É fantasiosa a etimologia francamente divulgada do Sal-a-Reu, proposta por Rocha e Cunha[6]. J. M. Piel defendeu tratar-se Salreu de um antropónimo de origem germânica, de *Sala-redu(s)[7], que no genitivo daria *Salaredi, no que concordou José Pedro Machado[8]. Contudo a explicação peca por não atentar à primitiva forma escrita do topónimo, trocando o R e o L, para o que apontou A. de Almeida Fernandes. Este autor manteve a teoria da origem germânica, porém filiando-a em sarwa «armas» + lews «paz»[9].

Neste entendimento, aliás linguisticamente bem fundamentado, Salreu terá sido no início o nome (de origem germânica) de um possessor rural, da época do domínio godo ou da Reconquista, tornado topónimo quando aplicado às suas terras, no genitivo, com o sentido de posse. O nome dessa propriedade rural, ou villa, sobrepôs-se às vizinhas, seja pela sua maior importância ou por nela se situar a igreja da região.

PASSAIS

Passal é a designação atribuída a uma parcela de terreno, em redor de todas as igrejas paroquiais, cuja existência em Portugal está documentada desde o fim do século IX e terminou com a Primeira República, que confiscou estes terrenos à Igreja. Um primeiro raio de 12 passos em torno da igreja correspondia ao adro actual, com cemitério. Do limite deste círculo media-se um segundo raio, de 72 passos, para terrenos de cultivo destinados ao sustento dos párocos e do culto. Constituíam-se pois de 84 passos de raio os passaes, ou dextros como também se chamaram primitivamente, gozando este espaço da imunidade eclesiástica.

«O nome dextri, adjectivo qualificativo de passus, indica que os passos se contavam com o pé direito e que se tratava de passos romanos ou duplos, equivalentes a dois passos simples. O passo romano continha cinco pés ou cinco pés e meio, de 28 centímetros cada pé. No sistema métrico decimal, cada passus dextros media 1,40 a 1,54 metros, podendo arredondar-se para metro e meio. Assim, os 84 passos davam uma circunferência de uns 126 m. de raio, e, portanto, uma superfície de uns 19.960 m2, quase dois hectares.

Embora os documentos dêem a entender que o círculo de 12 passos e o de 72 formavam um todo de 84 passos de raio, é natural que, muitas vezes, o terreno equivalente aos 72 passos ficasse a certa distância, em terras equivalentes em extensão e qualidade às abrangidas pelos 72 passos de raio»[10].

PASSAIS DAS FREGUESIAS DE ESTARREJA E MURTOSA

Na sequência da Lei da Separação do Estado das Igrejas (1911) procedeu-se ao inventário dos bens cultuais em todas as freguesias. Os passais acabariam confiscados pelo Estado, podendo os terrenos ser utilizados para fins de interesse público, arrendados ou alienados, revertendo para a Fazenda Nacional os lucros que pudessem proporcionar. O fim da posse eclesiástica deixou rasto escrito, consultável no Arquivo Corrente do Ministério das Finanças, e também online[11]. Registam-se apenas algumas referências respeitantes aos passais das freguesias de Estarreja e Murtosa:

1) Avanca – Notícia de 1891 localiza o passal (remanescente) junto à Residência Paroquial, confrontando com o Norte do adro da igreja[12]. Após o inventário de 1911[13], o Ministério das Finanças procedeu à venda da Residência e passal, por arrematação pública que teve lugar em Lisboa em 15 de Dezembro de 1919[14]. O passal voltou mais tarde a ser alienado pela Nestlé[15].

2) Beduído – No inventário de 1911 consta que a igreja de Beduído confrontava com o passal a Norte, Este e Oeste, e com o cemitério a Sul[16]. A rua que fica a Norte da igreja tem hoje a designação de Rua do Passal.

3) Canelas – O passal de Canelas acabou incorporado na Fazenda Nacional em 1924/1925[17].

4) Fermelã – Inclui-se no inventário de 1911 o passal de Fermelã[18].

5) Pardilhó – Situava-se o passal, ou o que dele restava, pouco a Norte da antiga igreja, no lugar do Agro, como ficou registado no inventário de 1911[19] e em notícia de 1918[20].

6) Salreu – Conhecem-se sucessivas notícias do passal, datadas de 1911, 1920-1924 e 1958[21]. O topónimo ainda é utilizado, no fundo da Rua de S. Martinho, zona da antiga igreja[22].

7) Veiros – Alude-se ao passal de Veiros em 1923[23].

8) Bunheiro – Encontra-se o passal no inventário de 1911 e em documentos de 1917 e 1924-1939[24].

9) Monte – Não existiu passal pois a paróquia só foi criada em 1932.

10) Murtosa – O passal da Murtosa está documentado em 1911, 1914, 1923 e 1944-1946[25].

11) Pardelhas – Não existiu passal pois a paróquia só foi criada em 1939.

12) Torreira – Não existiu passal pois a paróquia só foi criada em 1928.

Enfim uma notícia de 1912 alude ao arrendamento dos passais de Beduído, Pardilhó, Murtosa e Salreu, estando então por arrematar Fermelã e Bunheiro[26].

HERDADORES

Os vilãos herdadores aparecem nos séculos XIII e XIV, não nobres mas descendentes dos presores da Reconquista e de pequenos proprietários moçárabes, dos quais teriam herdado os alódios, ou seja, eram possuidores livres de terras. Podiam no entanto ter de pagar géneros e prestar serviços pessoais ao rei. Uns exploravam directamente as suas terras, outros cediam-nas à exploração. Também se podiam chamar herdadores aqueles que detinham o domínio útil sobre uma parcela de terra, aforada com prazo perpétuo, transmitindo-se por isso hereditária e perpetuamente o seu direito. Em qualquer caso trata-se de pequenos proprietários, tendo origem entre os mais ricos destes os cavaleiros-vilãos. Distinguem-se dos vilãos reguengueiros, que eram simples arrendatários dos reguengos (terras régias). Com herdador relaciona-se herdade (hereditas), com o significado de bem de raiz nos séculos IX a XV, o mesmo que casal, quinta, herdamento, prédio rústico, granja, propriedade e aldeia.

HERDEIROS, NATURAIS OU PADROEIROS

Durante o século XI e princípio do século XII as igrejas eram geralmente património de leigos, descendentes dos respectivos fundadores ou dotadores. Estes descendentes tomavam a designação de herdeiros, naturais ou padroeiros[27]. Como bem patrimonial que eram, as igrejas transmitiam-se hereditariamente e podiam ser alienadas, sem intervenção da jurisdição eclesiástica[28]. Os abusos dos herdeiros sobre o património eclesiástico motivaram freio régio, a partir de 1261[29].

BIBLIOGRAFIA

1. FONTES 

ANTT, Cabido da Sé de Coimbra, Lv. 6, fl. 49v – Livro Preto da Sé de Coimbra (antiga Colecção Costa Basto, n.º 36) – A.D. 1076

ANTT, Cabido da Sé de Coimbra, Documentos particulares, 1.ª incorporação, mç. 2, doc. 31 – A.D. 1106

Documentos Medievais Portugueses, ed. Rui Pinto de Azevedo, vol. 3, Documentos Particulares, AD 1101-1115, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1940, doc. n.º 208, pp. 179-180 (ANTT, Cabido da Sé de Coimbra, Documentos particulares, 1.ª incorporação, mç. 2, doc. 31)

Livro Preto: Cartulário da Sé de Coimbra. Apres., introd., not. e bibliog. Manuel Augusto Rodrigues; pref. critérios transcrição e aparatos críticos Avelino de Jesus da Costa. Ed. crítica. Coimbra: Arquivo da Universidade de Coimbra, 1999

Livro Preto da Sé de Coimbra, vol. 1, Arquivo da Universidade de Coimbra, 1977, doc. n.º 103, pp. 150-151 (ANTT, Cabido da Sé de Coimbra, Lv. 6, fl. 49v – Livro Preto da Sé de Coimbra)

 “Passais da igreja de Salreu no ano de 1076”, ed. Miguel de Oliveira, Arquivo do Distrito de Aveiro, vol. II, n.º 6, 1936, pp. 129-130 (ANTT, Cabido da Sé de Coimbra, Lv. 6, fl. 49v – Livro Preto da Sé de Coimbra; transcrição e tradução) 

2. ESTUDOS 

LOPES PEREIRA – “Couto e julgado de Antuã”, Arquivo do Distrito de Aveiro, XII, 1946, p. 273

PEREIRA, Marco – Salreu – Património Construído, Junta de Freguesia de Salreu, 2009, pp. 4-6

OLIVEIRA, Miguel de – “Passais da igreja de Salreu no ano de 1076”, Arquivo do Distrito de Aveiro, vol. II, n.º 6, 1936, pp. 129-130

VITERBO, Joaquim de Santa Rosa de – Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usaram e que hoje regularmente se ignoram, 2.ª ed., vol. II, Lisboa, A. J. Fernandes Lopes, 1865, pp. 320-327 (Igreja) 

2.1. TOPÓNIMO SALREU 

DIONISIO, Sant’Anna (apresentação e notas) – Guia de Portugal, 3.º ed., vol. III – Tomo 1 – Beira. Beira Litoral, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1993, p. 563

FERNANDES, A. de Almeida – “Toponímia”, Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, XXXII, p. 72

FERNANDES, A. de Almeida – Toponímia Portuguesa (Exame a um Dicionário), Arouca Associação para a Defesa da Cultura Arouquense 1999, p. 529

MACHADO, José Pedro, Diccionário Onomástico Etimológico de Língua Portuguesa, 2.ª ed., 1993, p. 1299 (Salreu)

PEREIRA, Marco – Salreu – Património Construído, Junta de Freguesia de Salreu, 2009, pp. 4-6

PEREIRA, Marco – “Os actuais concelhos de Estarreja e Murtosa no século XIII”, Terras de Antuã, VIII, 2014, pp. 157-194

PIEL, J. M. – Os nomes germânicos na toponímia portuguesa, separata do Boletim de Filologia, tomo II e ss., 1936, pp. 196, 257, 258 

2.2. PASSAIS 

COSTA, Américo – Diccionario chorographico de Portugal continental e insular, Livr. Civilização, vol. II, 1930, p. 456 (Angeja)

COSTA, Avelino Jesus da, O bispo D. Pedro e a organização da arquidiocese de Braga, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Instituto de Estudos Históricos Dr. António de Vasconcelos, 1959, pp. 342-343

FERNANDES, A. de Almeida – Toponímia Arouquense, Arouca, Associação para a Defesa da Cultura Arouquense, 1995 (Passal)

FERNANDES, A. de Almeida – Toponímia do concelho de S. João da Pesqueira, Arouca, Associação da Defesa do Património Arouquense, 2003, p. 159 (Passal)

OLIVEIRA, Miguel de – As paróquias rurais portuguesas: sua origem e fundação, União Gráfica, 1950, pp. 101-102

VITERBO, Joaquim de Santa Rosa de – Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usaram e que hoje regularmente se ignoram, 2.ª ed., vol. II, Lisboa, A. J. Fernandes Lopes, 1865, pp. 193 (Dextros), 467-468 (Passaes), 468 (Passal) 

2.3. PASSAIS DAS FREGUESIAS DE ESTARREJA E MURTOSA 

BISMARCK FERREIRA, Delfim, e CORREIA, Telma – Avanca e os seus autarcas até à implantação da República, 1836-1910, Junta de Freguesia de Avanca, 2010, p. 142

CÁLÃO, Hugo – “Os inventários das igrejas e capelas das paróquias dos concelhos de Estarreja e Murtosa – Parte I”, Terras de Antuã, IV, 2010, pp. 55-100

CARDOSO, Carlos – Subsídios para uma Monografia Histórica e Descritiva da Freguesia de Avanca, Câmara Municipal de Estarreja, 2000 (1.ª ed. de 1961), p. 55

A Notícia, n.º 11, 12.10.1919, p. 2

PEREIRA, Marco – Salreu – Património Construído, Junta de Freguesia de Salreu, 2009, pp. 4-6, 37

PEREIRA, Marco – História do Centro Paroquial e da Paróquia de Pardilhó, Centro Paroquial de Assistência da Freguesia de Pardilhó, 2012, p. 23

O Povo da Murtosa, n.º 372, 26.10.1912, p. 1

A Voz de Estarreja, n.º 14 (34), 9.12.1919, p. 1 

2.4. HERDADORES 

ALMEIDA, Fortunato de – História de Portugal, 1.ª ed., I, Coimbra, Imprensa Académica, 1899, p. 389

OLIVEIRA, Miguel de – “Inquirições de D. Afonso III na Terra de Santa Maria”, Lusitânia Sacra, Tomo VII, 1964/66, p. 98

OLIVEIRA MARQUES, A. H. de – “Herdadores”, Dicionário de História de Portugal, dirig. por Joel Serrão, III, pp. 213-214

SAMPAIO, Alberto – Estudos Históricos e Económicos – As Vilas do Norte de Portugal, Lisboa, Editorial Veja, 1979, pp. 127 e 146

SOUSA, Gonçalo António Tavares de – Exame da questão sobre os foros do Convento de Arouca no Concelho de Estarreja, Porto, Typ. de J. L. de Souza, s/d (c. 1850), p. 9

VITERBO, Joaquim de Santa Rosa de – Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usaram e que hoje regularmente se ignoram, 2.ª ed., vol. II, Lisboa, A. J. Fernandes Lopes, 1865, pp. 226 (Erdador), 309-312 (Herdade), 312 (Herdador) 

2.5. HERDEIROS, NATURAIS OU PADROEIROS 

CASTRO, Armando de – “Padroados”, Dicionário de História de Portugal, dirig. por Joel Serrão, IV, p. 511

CASTRO, Armando de – “Padroeiros”, Dicionário de História de Portugal, dirig. por Joel Serrão, IV, pp. 511-512

COSTA, Avelino Jesus da, O bispo D. Pedro e a organização da arquidiocese de Braga, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Instituto de Estudos Históricos Dr. António de Vasconcelos, 1959, pp. 342-343

GAMA BARROS, Henrique da – História da Administração Pública em Portugal nos séculos XII a XV, 2.º ed. (dirig. por Torquato de Sousa Soares), 11 vols., 1945-1956, vol. III, p. 337

SANTOS, Cândido Augusto Dias dos – O Censual da Mitra do Porto: subsídios para o estudo da diocese nas vésperas do Concílio de Trento, Câmara Municipal do Porto, 1973, p. 100, nota 121

VITERBO, Joaquim de Santa Rosa de – Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usaram e que hoje regularmente se ignoram, 2.ª ed., vol. II, Lisboa, A. J. Fernandes Lopes, 1865, pp. 313 (Herdeiros), 320-327 (Igreja), 436-437 (Natural)

ANEXOS

DOC. 1

S. L. ERA 1114 (A.D. 1076), MÊS DE FEVEREIRO

Gonçalo Soares, Mendo Oseviz, outro Gonçalo Soares e Ero Soares, herdeiros da vila de Salreu, confirmam e restituem o passal que circundava a igreja de S. Martinho daquela villa.

Confirmatjio e integitas passalium de ecclĩa scĩ martini de sárleo .

In dĩ nomine . Nos hereditatores de uilla sarleo . scilic& gundisaluus soariz . et menendus oseuiz . et alius gundisaluus soariz . atque erus suariz . quj usque hodie tenuimus passales de ecclĩa scĩ martini inter nos . modo pac& nobis omnibus prenñatis . ut reintegraremus illam illam (sic) ecclĩam de octuaginta et . IIorII . passibus per omnem circuitum . ut sint semper ad profectum eiusdem ecclĩe . et clĩco ibi commoranti cunctis temporibus . pro remissione nȓorum peccatorum . et pro amore scĩ martini . Si uº ex hinc aliqui ex nobis supªnnatis uoluerimus hos passales ab illa ecclĩa iure abstollȇ . et hoc factȗ infringere . ut pariat . ccc . soldos illo clĩco qui ibi moratus fuĩt . uel qi suã uocem pulsauerit de parte de illo episcopo. et insuper incidat in pristinã excõmunicatjonȇ . Facta reintegratjoĩs carta mense februario . Era . mª . cª . xª . iiiªi . Nos omnes prennatj (sic) hanc cartam coram idoneos testes roborauimus + + + + Gundisaluus diaconus confirmo . Martinus prior confirmo . Fernandus gunsaluiz testis . Frogia abba confirmo . Fernandus ermigiz testis . Jhoannes presbiter confirmo . Gunsaluus gutierriz testis . Dnĩcus presbiter confirmo . Pelagius esarkiz testis . Petrus presbiter confirmo . Jvlianus presbiter Notuit . Menendus archidiaconus confirmo .

Livro Preto da Sé de Coimbra, vol. 1, Arquivo da Universidade de Coimbra, 1977, doc. n.º 103, pp. 150-151 (ANTT, Cabido da Sé de Coimbra, Lv. 6, fl. 49v – Livro Preto da Sé de Coimbra)

DOC. 2

1106, FEVEREIRO. – Gonçalo Soares e outros restituem à igreja de S. Martinho de Salreu (c. Estarreja) uma cêrca de oitenta e quatro «passais»

T.T. – Sé de Coimbra, m. II, doc. 31, or. vis. trans.

In Dei nomine. Nos hereditatores de uilla de Sarleo, scilicet Gundisaluus Suariz et Menendus Oseuiz et alius Gundisaluus Suariz atque Erus Suariz qui usque hodie tenuimus passales de ecclesia Sancti Martini inter nos modo placet nobis omnibus prenominatis ut redintegraremus illam ecclesiam de octuaginta et IIII.or passibus per omni circuitu (per omni circuitu entrelinhado) ut sint semper ad profectum eiusdem ecclesie et clerico ibi commoranti cunctis temporibus pro remissione nostrum peccatorum et pro amore Sancti Martini. Si uero ex hinc uni ex nobis prenominati uoluerint hos passales ab illa ecclesia iure abstollere et hoc factum infringere ut pariet trecentos solidos illo clerico qui ibi moratus fuerit uel qui suam uocem pulsauerit de parte de illo episcopo et insuper incidat in pristinam excomunikatjonem. Facta redintegratjonis carta mense Februario Era M.C.X˘.IIII. Nos omnes prenominati hanc cartam coram idoneos testes roboramus + + + +.

Gundisaluus Gutterriz ts., Pelagius Ezrakiz ts. – Fernandus Guaziniz ts., Fernandus Ermigiz ts. – Martinus prior conf., Frogia aba conf., Iohannes presbiter conf., Dominicus presbiter conf. – Petrus presbiter conf., Menendus archidiaconus conf., Gundisaluus diaconus conf.

Iulianus presbiter notuit.

Documentos Medievais Portugueses, ed. Rui Pinto de Azevedo, vol. 3, Documentos Particulares, AD 1101-1115, Lisboa, Academia Portuguesa da História, 1940, doc. n.º 208, pp. 179-180 (ANTT, Cabido da Sé de Coimbra, Documentos particulares, 1.ª incorporação, mç. 2, doc. 31)

DOC. 3

TRADUÇÃO

Confirmação e entrega dos passais da igreja de S. Martinho de Sarleo (por Salreu).

Em nome de Deus. Nós, os herdadores da vila de Sarleo, a saber, Gonçalo Soares, Mendo Oseviz, outro Gonçalo Soares, e Ero Soares, que até hoje condividimos a posse dos passais da igreja de S. Martinho: apraz-nos agora a todos os sobreditos reintegrarmos essa igreja de 84 passos a toda a volta para que sempre sirvam de logradouro à mesma igreja e ao clérigo nela residente, por todo o tempo, em remissão de nossos pecados e por amor de S. Martinho. Porém, se desde agora alguns de nós acima nomeados quiser subtrair ao direito dessa igreja estes passais e infringir esta resolução, pague 300 soldos ao clérigo que nela morar ou a quem o representar da parte do bispo, e incorra ainda na antiga excomunhão.

Fez-se esta carta de reintegração no mês de Fevereiro de 1114 (ano de 1076). Todos nós acima nomeados confirmamos esta carta perante testemunhas idóneas. Martinho, prior, confirmo; Frógia, abade, confirmo; João, presbítero, confirmo; Onerico, presbítero, confirmo; Pedro, presbítero, confirmo; Mendo, arcediago, confirmo; Gonçalo, diácono, confirmo. Fernando Gonçalves, testemunha; Fernando Ermiges, testemunha; Gonçalo Guterres, testemunha; Pelágio Ezarkiz, testemunha. Julião, presbítero, o notou.

“Passais da igreja de Salreu no ano de 1076”, ed. Miguel de Oliveira, Arquivo do Distrito de Aveiro, vol. II, n.º 6, 1936, pp. 129-130 (ANTT, Cabido da Sé de Coimbra, Lv. 6, fl. 49v – Livro Preto da Sé de Coimbra)
 

1076, FEVEREIRORestituição dos passais de S. Martinho de Salreu.
ANTT, Cabido da Sé de Coimbra, Lv. 6, fl. 49v – Livro Preto da Sé de Coimbra (antiga Colecção Costa Basto, n.º 36)



1106, FEVEREIRORestituição dos passais de S. Martinho de Salreu.
ANTT, Cabido da Sé de Coimbra, Documentos particulares, 1.ª incorporação, mç. 2, doc. 31




[1] ANTT, Cabido da Sé de Coimbra, Lv. 6, fl. 49v – Livro Preto da Sé de Coimbra (antiga Colecção Costa Basto, n.º 36).

[2] ANTT, Cabido da Sé de Coimbra, Documentos particulares, 1.ª incorporação, mç. 2, doc. 31.

[3] LOPES PEREIRA, “Couto e julgado de Antuã”, Arquivo do Distrito de Aveiro, XII, 1946, p. 273.

[4] VITERBO, Joaquim de Santa Rosa de – Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usaram e que hoje regularmente se ignoram, 2.ª ed., vol. II, Lisboa, A. J. Fernandes Lopes, 1865, p. 324 (Igreja).

[5] PEREIRA, Marco – “Os actuais concelhos de Estarreja e Murtosa no século XIII”, Terras de Antuã, VIII, 2014, pp. 157-194.

[6] DIONISIO, Sant’Anna (apresentação e notas) – Guia de Portugal, 3.º ed., vol. III – Tomo 1 – Beira. Beira Litoral, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1993, p. 563.

[7] PIEL, J. M. – Os nomes germânicos na toponímia portuguesa, separata do Boletim de Filologia, tomo II e ss., 1936, pp. 196, 257, 258.

[8] MACHADO, José Pedro, Diccionário Onomástico Etimológico de Língua Portuguesa, 2.ª ed., 1993, p. 1299 (Salreu).

[9] FERNANDES, A. de Almeida – Toponímia Portuguesa (Exame a um Dicionário), Arouca, Associação para a Defesa da Cultura Arouquense, 1999, p. 529.

[10] COSTA, Avelino Jesus da, O bispo D. Pedro e a organização da arquidiocese de Braga, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Instituto de Estudos Históricos Dr. António de Vasconcelos, 1959, pp. 342-343.

[11] Consulte-se, a este respeito: CÁLÃO, Hugo – “Os inventários das igrejas e capelas das paróquias dos concelhos de Estarreja e Murtosa – Parte I”, Terras de Antuã, IV, 2010, pp. 55-100.

[12] BISMARCK FERREIRA, Delfim, e CORREIA, Telma – Avanca e os seus autarcas até à implantação da República, 1836-1910, Junta de Freguesia de Avanca, 2010, p. 142.

[13] CÁLÃO, Hugo – “Os inventários das igrejas…”, cit., p. 57.

[14] A Notícia, n.º 11, 12.10.1919, p. 2; A Voz de Estarreja, n.º 14 (34), 9.12.1919, p. 1.

[15] CARDOSO, Carlos – Subsídios para uma Monografia Histórica e Descritiva da Freguesia de Avanca, Câmara Municipal de Estarreja, 2000 (1.ª ed. de 1961), p. 55.

[16] CÁLÃO, Hugo – “Os inventários das igrejas…”, cit., p. 60.

[17] CÁLÃO, Hugo – “Os inventários das igrejas…”, cit., p. 70.

[18] CÁLÃO, Hugo – “Os inventários das igrejas…”, cit., p. 71.

[19] CÁLÃO, Hugo – “Os inventários das igrejas…”, cit., p. 74.

[20] PEREIRA, Marco – História do Centro Paroquial e da Paróquia de Pardilhó, Centro Paroquial de Assistência da Freguesia de Pardilhó, 2012, p. 23.

[21] CÁLÃO, Hugo – “Os inventários das igrejas…”, cit., pp. 77, 82, 83.

[22] PEREIRA, Marco – Salreu – Património Construído, Junta de Freguesia de Salreu, 2009, pp. 4-6, 37.

[23] CÁLÃO, Hugo – “Os inventários das igrejas…”, cit., pp. 87 e 97.

[24] CÁLÃO, Hugo – “Os inventários das igrejas…”, cit., pp. 88, 91 e 92.

[25] CÁLÃO, Hugo – “Os inventários das igrejas…”, cit., pp. 87, 94, 97 e 98.

[26] O Povo da Murtosa, n.º 372, 26.10.1912, p. 1.

[27] VITERBO, Joaquim de Santa Rosa de – Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usaram e que hoje regularmente se ignoram…, 2.ª ed., vol. II, Lisboa, A. J. Fernandes Lopes, 1865, pp. 320-327 (Igreja).

[28] GAMA BARROS, Henrique da – História da Administração Pública em Portugal nos séculos XII a XV, 2.º ed. (dirig. por Torquato de Sousa Soares), 11 vols., 1945-1956, vol. III, p. 337.


[29] CASTRO, Armando de – “Padroeiros”, Dicionário de História de Portugal, dirig. por Joel Serrão, IV, pp. 511-512.



Marco Pereira

In Terras de Antuã, Câmara Municipal de Estarreja, IX, 2015, pp. 157-165.

sábado, 22 de agosto de 2015

São Miguel de Fermelã

O S. Miguel Arcanjo, titular da igreja de Fermelã, celebra-se no dia 29 de Setembro, o mesmo da festa litúrgica dos arcanjos S. Gabriel e S. Rafael. Nesta ocasião realiza-se também em Fermelã a Feira das Cebolas, de antiga tradição, como a que em Setembro costumava fazer-se em Aveiro. A uma e outra acorriam as lavradeiras de Veiros, para vender as cebolas que em grande quantidade se cultivavam na sua freguesia. Coincide o S. Miguel com a época das colheitas, sobrepondo-se ao ciclo anual agrícola e às celebrações pagãs da antiguidade que nele se baseavam.

Nas Inquirições de 1220 há referência à igreja de S. Miguel, onde então paroquiava Pelagius petriz: «De fermella Pelagius petriz prelatus». O pároco era nessa remota época escolhido pelos seus parentes ou paroquianos, como diz a mencionada Inquirição: «de patronatu ipsius ecclesie dixerunt quod clerici cum suis consanguineis sunt inde patroni». Da eleição dos priores (o título do pároco alterna na documentação antiga entre vigário, prior e reitor) pelos paroquianos, passou depois o padroado para as mãos dos senhores de Angeja. Foi justamente o senhor de Angeja, João de Albuquerque, cavaleiro da casa del rei e do seu conselho, que com sua mulher, D. Helena, doaram em 1468 o padroado da igreja de Fermelã ao Mosteiro de Jesus de Aveiro. Já naqueles finais do século XV o Mosteiro de Jesus de Aveiro recebia pelo S. Miguel, em Setembro, parte dos direitos eclesiásticos que lhe assistiam em Fermelã. Manteve-se o padroado na posse do Mosteiro até à extinção dos padroados, no século XIX, pela legislação liberal de D. Pedro IV.

No Antigo Regime eram anexas à matriz de S. Miguel de Fermelã as igrejas de Nossa Senhora das Neves (Angeja) e S. Tomé (Canelas), para as quais o reitor de Fermelã nomeava curas. Por sinal Canelas só na segunda metade do século XVII conquistou este primeiro sinal de autonomia, como curato com igreja própria debaixo da autoridade do reitor de Fermelã, não passando de lugar antes disso.

O Jornal de Estarreja, n.º 4671, 27.9.2013, p. 16

sexta-feira, 17 de abril de 2015

130 anos d'O Jornal de Estarreja

Uma história de 130 anos, contada em poucas linhas, omite necessariamente muitos nomes importantes, assim como os mais diversos factos e acontecimentos que mereciam ser assinalados. É por isso que apenas uma suave sombra dessa história aqui fica, com várias lacunas. Um jornal com 130 anos de vida é também, para além da sua própria história, uma fonte privilegiada para pesquisar a história do concelho de Estarreja, ao longo deste período.

O “Jornal de Estarreja” saiu pela primeira vez com a data de 12-04-1883, pela mão de Caetano Ferreira e para defesa do Partido Progressista, tendo sido publicado até 1887.

Em 10-04-1887 José Mortágua publicou em Estarreja o primeiro número de um jornal humorístico, chamado “O Gafanhoto”. Este pequeno periódico evoluiu para “O Estarrejense” (1888-1889), ao qual sucedeu “O Jornal de Estarreja” (1890 e seguintes), ocupando o espaço então vago de noticiar os assuntos do concelho de Estarreja. O jornal ainda estava nas mãos de José Mortágua quando este faleceu, em 1906.

Calos Alberto Costa, que trabalhava n’“O Jornal de Estarreja” desde criança, comprou-o em 1907 a Manuel Valente de Almeida e Silva, dando-lhe continuidade até falecer, em 1956. Carlos Alberto Costa, com experiência de colaboração com outros periódicos, empenhou-se em fazer sair um jornal independente e defensor dos interesses locais. Por várias vezes viu suspensa a sua publicação, que era o ganha-pão com o qual sustentava a família, e foi julgado e preso por defender intransigentemente os interesses da terra, o que continuou a fazer mesmo depois do 28 de Maio de 1926. Entre as causas advogadas pelo jornal sob a sua direcção contam-se: a construção do hospital, a criação de uma corporação de bombeiros, e a defesa da integridade concelhia (1926-1928), muito contribuindo para a devolução de Pardilhó ao concelho de Estarreja. No rescaldo deste episódio a Câmara Municipal mudou o nome da Rua das Amoreiras, onde funcionava a tipografia do jornal, para Rua do Jornal de Estarreja, mais tarde perdendo e recuperando a nova designação, que se mantém hoje. Numa casa desta rua manteve o jornal a sua redacção, desde 1926 a 1977/78, onde era composto manualmente letra por letra, e impresso com prensa à moda antiga. Suspensa a publicação de “O Jornal de Estarreja” em diversas ocasiões, por razões políticas, saiu temporariamente com título de “O Estarrejense” (1919, 1927-1928). Entretanto Carlos Alberto Costa iniciou a publicação de outro periódico, designado “O Jornal de Cambra”, a partir de 1931. Ambos os títulos eram produzidos na tipografia própria, de onde saíam diversos trabalhos tipográficos e em algumas ocasiões jornais de outros editores.

Com o agravar do estado de saúde de Carlos Alberto Costa em 1950, e o seu falecimento em 1956, sucedeu-lhe na direcção de “O Jornal de Estarreja” e “O Jornal de Cambra” o seu filho, Dr. Eduardo Costa, que contava com a colaboração técnica do seu irmão Adalberto Costa e de outros trabalhadores. O Dr. Eduardo Costa, director de “O Jornal de Estarreja” entre 1956 e 1977, que era advogado, foi também professor e director da Escola Secundária de Estarreja, gerente do Grémio da Lavoura de Estarreja, vereador, presidente da direcção dos Bombeiros Voluntários de Estarreja e do Clube Desportivo de Estarreja, e investigador da história local, com estudos publicados nos jornais e nas revistas “Arquivo do Distrito de Aveiro” e “Aveiro e o Seu Distrito”.



Ao Dr. Eduardo Costa, falecido em 1977, sucedeu na direcção de “O Jornal de Estarreja” o seu filho, Dr. Eduardo Carlos Costa, e poucos números depois o Dr. Norberto Costa, que embora com o mesmo apelido já não pertencia à família. Seguiram-se depois tempos difíceis para o jornal, que inclusive deixou de ser publicado. O jornal e as suas instalações foram entretanto adquiridos por uma sociedade, cujos sócios estavam ligados ao Partido Social Democrata. Acabaria por deixar a antiga casa, onde este partido mantém hoje a sua sede, deixando também de ter tipografia própria. Seguiram-se como directores o Dr. Dario Matos, e o Professor Artur Castro Tavares, que deu impulso ao jornal, voltando a ser semanário e aumentando o número de páginas. Nos últimos anos “O Jornal de Estarreja” tem sido dirigido pela Dra. Andreia Tavares (2004-2012), e agora pela Dra. Joana Sousa (2013). Um sinal dos tempos, pela primeira vez a história do jornal escreve-se no feminino e com formação académica na área do jornalismo.

In O Jornal de Estarreja, n.º 4652, 12.4.2013, p. 3

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Igreja de S. Martinho de Salreu

No mais antigo documento escrito que chegou aos nossos dias com o nome de Salreu, então na forma de “Sarleo”, consta já a sua igreja dedicada a S. Martinho de Tours. Tem este documento duas versões, ambas actualmente à guarda do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Uma, com a data de 1076, está no Livro Preto da Sé de Coimbra, fl. 49, de cujas primeiras linhas reproduzimos a imagem anexa. A segunda versão, datada de 1106, é um documento avulso do Cabido da Sé de Coimbra, Documentos particulares, 1.ª incorporação, mç. 2, doc. 31. O texto que aí se encontra refere-se a um conjunto de herdeiros de propriedades rurais, na zona de Salreu, também descendentes dos fundadores da respectiva igreja, à qual entregam terras de cultivo ao seu redor.

A igreja anterior à actual, provavelmente aquela primitiva de 1076, ficava ao fundo da rua de S. Martinho, no sítio do Adro-Velho, justamente rodeado pelos terrenos que ainda hoje se chamam de Passal, uma reminiscência dos passais doados em 1076 e que contribuíram para o sustento do culto até ao século XIX.

Entre 1663 e 1668 começou a construção da actual igreja, substituindo a antiga que se encontrava em mau estado. Deve ter sido inaugurada em 1673, pois é a data que ficou registada na pedra por cima da sua porta principal, e é também o que consta na Memória Paroquial de 1721. Aí é caracterizada a igreja como sumptuosa, acrescentando-se ter sido construída pelo povo sem ajuda. Porém a edificação da capela-mor, que era devida ao prior, ainda estava por fazer em 1673.


Na Memória Paroquial de 1721 registam-se quatro altares, além do de São Martinho na capela-mor: N. S. Rosário, Senhor dos Passos, Almas, e Espírito Santo. A Memória Paroquial de 1758 aponta diferenças, indicando o Santíssimo Sacramento, Nossa Senhora do Rosário, Espírito Santo, e Santo Cristo, e acrescenta a existência das irmandades dos Passos e das Almas.

Em algumas corografias e dicionários geográficos portugueses do século XIX salientam-se as características do edifício, designadamente o ser uma «grande egreja de naves» (está dividida em três anves), ter bons ou óptimos passais, e boa casa de residência paroquial.


Ao longo dos anos vários restauros se fizeram na igreja. Um dos principais ocorreu cerca de 1878, quando se alterou a fachada, abriram-se novas janelas, foi ampliada a capela-mor e alteada a torre, construídos anexos e aplicados estuques. Entre as obras de vulto mais recentes salientam-se as concluídas em 1990.

In O Jornal de Estarreja, n.º 4678, 22.11.2013, p. 2

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Breve evocação da escola Conde de Ferreira em Estarreja

Joaquim Ferreira dos Santos, que veio a ser Conde de Ferreira, nasceu e faleceu no Porto (04.10.1782 – 24.03.1866). Filho de pais modestos, fez fortuna no Brasil, que aplicou em grande parte em obras de solidariedade social. Foi designadamente com o seu legado testamentário que se construiu o Hospital de alienados Conde de Ferreira (Porto, 1883). Da sua herança destinou também 144 contos ao Estado, para a construção de 120 escolas primárias em outras tantas sedes de concelho. O projecto uniforme para as 120 escolas, datado de 1866, encontra-se actualmente no Arquivo Histórico do Ministério da Habitação e Obras Públicas.

A sede do concelho de Estarreja foi uma das contempladas, cabendo-lhe então a planta da escola e 1200$00 para a construir. Em 1867 a Câmara Municipal de Estarreja comprou ao Dr. Filipe José Pereira Brandão, da Quinta da Costeira, uma parcela com 600 m², pelo valor de 160$00. A escola construiu-se, ficando na porta principal a data de 1866, do falecimento do Conde de Ferreira, e no portão 1868, que deve ser da inauguração.

Em Estarreja a Escola Conde de Ferreira foi durante décadas a única do ensino primário na Vila. Refira-se que a taxa de analfabetismo em Estarreja, em finais do século XIX, andava na casa dos 80%, sendo na ordem dos 70% para os homens, e dos 90% para as mulheres.

Numa notícia do Jornal de Estarreja de 1960 lê-se que a escola, originalmente com duas salas de aula, fora ampliada com uma terceira havia anos. A terceira sala de aula terá sido pois acrescentada no início dos anos 50, ou mesmo nos anos 40, de acordo com algumas testemunhas crianças à época.

Segundo informa o Jornal de Estarreja de 4 de Outubro de 2002, a escola Conde de Ferreira, que saiu da escola do Paço, passaria então a acolher o Centro de Validação e Reconhecimento de Competências. Deve ter sido pois o ano lectivo de 2001/2002 o último em que funcionou como escola do ensino primário. Reabriu portas em 21 de Setembro de 2013, agora como Casa das Artes e sede do Rotary Club de Estarreja, que recebeu o edifício da Câmara Municipal de Estarreja e procedeu a obras de recuperação. Ali ficam expostos diversos objectos a lembrar a antiga escola, como se vê na foto anexa do Rotary Estarreja.

In O Jornal de Estarreja, n.º 4681, 13.12.2013, p. 3