quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Toponímia da Região Marinhoa - Nomes de freguesias e lugares

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VEIROS. – O nome de Veiros, primitivamente escrito Veeyros, deriva possivelmente dos veios de água locais [12], que eram as suas vias de acesso preferencial. Há opiniões defendendo tratar-se do nominativo do antropónimo latino Velerius [13], apesar da toponímia antroponímica ser em regra genitiva e extremamente rara no nominativo. Não só existem localidades portuguesas e galegas com nome igual ou parecido, como a Galiza tem o destacado endereço na internet http://www.vieiros.com/, cujo nome significa caminhos, concordando pois com os veios.

OLAS (VEIROS). – Aponta-se-lhe ligação a água em remoinho, como sucede nos rios [14].

MALPICA (VEIROS). – Segundo David LOPES será um topónimo de origem provençal [15].

MURTOSA. – Para alguns autores Murtosa relaciona-se com a planta murta [16].

Outra hipótese poderá dar-se. Em muitos documentos medievais portugueses mencionam-se murtórios, que eram bens imóveis abandonados (casas e terrenos). Ao colono que os utilizasse assistia o direito de fogo morto, tornando-o seu possuidor. Era então possível a ocupação de imóveis, hoje não admitida pela lei. Em Salreu há uma rua do Mortório, nome que deverá ter este significado. Em razão de pestes ou outra causa de despovoamento poderão ter-se desocupado casas e terras, que quando mais tarde reocupadas designavam-se de murtórios, de onde houve talvez Murtosa [17].


Fig. 1. Primeiros vestígios de presença humana nos concelhos de Estarreja e Murtosa.


BUNHEIRO. – Não suscita dúvidas que o topónimo Bunheiro tem origem em bunho (ou búinho – junco), planta comum na região [18].

PARDELHAS E PARDILHÓ. – A teoria mais consistente sobre a origem dos nomes de Pardelhas e Pardilhó, e que tem franca aceitação doutrinal, é a que os relaciona com parede [19], acrescendo os sufixos –elhas e – elho [20].

Em Portugal é frequente Pardelhas (Fafe, Marão, Paços de Ferreira, Arouca), com variantes de parede em muitos outros locais. Incluem-se em terras próximas os lugares de Paredes e Outeiro de Paredes (Avanca), Pardieiros (a norte de Água Levada) e Marinha Pardilhoa (na ria). Por outro lado o onomástico medieval do nosso país é fértil em expressões relacionadas com parede: Pardellas (883) [21], Paretelias (911 e 960) [22], e mais documentação posterior.

Pardelhas da actual freguesia da Murtosa surge, escrita como hoje, em 1287, ao passo que Pardilhó consta em 1346-1357 como Pardilhoo ou Pardelhoo [23]. Daí em diante Pardilhó escreve-se frequentemente Pardelho [24].

Em meio arenoso e sem rochas, pode custar a aceitar os dois topónimos derivados de parede. Contudo é preciso que se lembre que no ano de 929 havia nas redondezas salinas, com «muris et moris» e «muros petrineos», pelo menos estas «salinas nostras proprias quam auemos in uilla dagaredi et auent iacentia ipsas salinas in loco predicto quod uocitant capetello iuxta corte salinas ariani de parte stario fontanella» [25], e quem sabe se outras que não tenham tido a sorte de se conservarem gravadas em letra de forma.

TORREIRA. – Aceita-se geralmente que o topónimo Torreira deva a sua origem à quentura do lugar [26]. Em desacordo, há quem defenda a possibilidade de relacionar-se com torre, por uma ter talvez existido por alturas do Muranzel [27]. Torreira é apelido, e igualmente topónimo na Galiza.

Outra hipótese pode ser colocada, e não menos digna de crédito. A norte, atravessando a fronteira para Ovar, localiza-se o Torrão do Lameiro. Torrão e Torreira têm a sua semelhança e a antiguidade de ambos deve equivaler-se. Um e outro se situam na antiga Gelfa, região onde pastavam gados livremente. Nos dicionários afirma-se a relação fácil de compreender de Torrão


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[12]. J. M. PIEL, “Miscelânea de Etimologia Portuguesa e Galega”, 1953, pp. 306-307 (Veeiro/Vieiro, no sentido de veia); Pedro Augusto FERREIRA, “Tentativa Etymologico-Toponymica”, vol. 3, p. 210 (veio de água, e outras hipóteses); A. de ALMEIDA FERNANDES, “Toponímia Arouquense”, 1995, s/p (a propósito de Vieiras diz que Vieiro e Vieiros terão significado de veia, no sentido de riachos ou arroios), e do mesmo autor “Toponímia do concelho de S. João da Pesqueira”, 2003, p. 225 (Vieiros «Sem dúvida, um riacho – ou, no nosso caso, mais que um. A escrita devia ser Veeiros, pois está-se com veia (
[13]. LEITE DE VASCONCELOS, “Opúsculos”, III, pp. 265-266; A. de ALMEIDA FERNANDES, “Toponímia Portuguesa”, 1999, p. 86 (sobre Veiro). É diferente a situação de Beiriz e Viariz, ditos germânicos por David LOPES, “Nomes árabes de terras portuguesas”, 1968, p. 144, por isso improvável a ideia de Veiros ser novi-godo, como propôs LOPES PEREIRA, “Murtosa Terra Nossa”, 2.ª ed., 1995, p. 35. De descartar a ligação de Veiros a aves, apresentada na juventude por AMORIM GIRÃO, “A Bacia do Vouga”, p. 61, até por tratar-se de matéria fora da sua esfera de autoridade enquanto geógrafo.
[14]. Joseph M. PIEL, “As Águas na Toponímia Galego-Portuguesa”, Boletim de Filologia, Tomo VIII, 1945, pp. 333-335 (cit. Joaquim da Silveira); Santos AGERO, “Etimologias Portuguesas”, Revista Lusitana, vol. 38, 1943, pp. 106-107.
[15]. David LOPES, “Nomes árabes de terras portuguesas”, 1968, p. 146.
[16]. LEITE DE VASCONCELOS, “Opúsculos”, III, p. 29; J. J. NUNES, “A vegetação na toponímia portuguesa”, Boletim da Segunda Classe da Academia de Sciências de Lisboa, vol. XIII, 1918/1919, ed. 1921, p. 156; Pedro Augusto FERREIRA, “Tentativa Etymologico-Toponymica”, vol. 1, p. 256; Antenor NASCENTES, “Dicionário Etimológico…”, 1952.
[17]. LOPES PEREIRA faz derivar o nome Murtosa de terra morta, em “O Progresso da Murtosa”, n.º 362, 15.8.1936, p. 6.
[18]. J. J. NUNES, “A vegetação na toponímia portuguesa”, Boletim da Segunda Classe da Academia de Sciências de Lisboa, vol. XIII, 1918/1919, ed. 1921, p. 141; A. de ALMEIDA FERNANDES, “Toponímia Portuguesa”, 1999, p. 84; Pedro Augusto FERREIRA, “Tentativa Etymologico-Toponymica”, vol. 3, p. 222; José TAVARES, “Notas Marinhoas”, I, p. 60.
[19]. LEITE DE VASCONCELOS, “Opúsculos”, I, pp. 552; do mesmo autor “Etimologias Portuguesas”, Revista Lusitana, VII, 1902, pp. 70-72; Pedro Augusto FERREIRA, “Tentativa Etymologico-Toponymica”, vol. 3, p. 89; J. M. PIEL, “Miscelânea de Etimologia Portuguesa e Galega”, 1953, pp. 234 e 334; Miguel de OLIVEIRA, “Pardilhó – nota etimológica”, Santa Maria de Válega, n.º 1, Março de 1967 (Pardelhas e Pardilhó, femininos, são diminutivos de parede, possivelmente relacionados com paredes de salinas); LOPES PEREIRA, “O Reguengo de Pardelhas”, Concelho da Murtosa, n.º 485, 21.3.1936, p. 1 (associa Pardelhas a parede, de palheiros, e cita LEITE DE VASCONCELOS, Revista Lusitana, VII), e “Murtosa Terra Nossa”, 2.ª ed., 1995, pp. 41-42 (Pardelhas e Pardilhó derivam de parede, por pardeeiros – casas humildes); MONTENEGRO DUQUE, “Toponimia Latina”, Enciclopédia Lingüística Hispánica, I, p. 519 (alguns topónimos relacionados com parede). José Pedro MACHADO entendeu que Pardilhó «deve estar por Pardelhó, dimin. ant. de Pardelha», e estabelece relação com parede por remissão para Pardelhas. Finalmente ALMEIDA FERNANDES escreveu que «Significa paredes pequenas – sendo paredelhas uma palavra tipicamente medieval» (“Meadela Histórica”, 1994, p. 21), acrescentando ser Pardelhas igual a Paredelhas, diminutivo de parede (muros), notando que parece também significou prédio rústico, cercado de muros (“Toponímia Arouquense”, 1995, s/p).
[20]. Sobre estes sufixos leia-se J. M. PIEL, que entre outros elementos afirmou poder nalguns casos estar –ilho por –elho (“A formação dos nomes de lugares e de instrumentos em português”, Boletim de Filologia, VII, 1940, pp. 1-17; “Estudos de Linguística Histórica Galego-Portuguesa”, 1989, pp. 208-209).
[21]. PMH-DC, doc. X, ano 883, p. 7.
[22]. PMH-DC, doc. XVII, ano 911, p. 12; PMH-DC, doc. LXXVIII, ano 960, p. 49.
[23]. Com o –o final duplo, a indicar que é aberto, portanto feminino, como em Pardelhas.
[24]. Em 1592 imprime-se Pardelhoo (ADP, Tombo da Mesa Abacial, Convento de Paço de Sousa – Penafiel, vol. 4, fl. 599v).
[25]. PMH-DC, doc. XXXV, ano 929, p. 22.
[26]. A. de ALMEIDA FERNANDES, “Toponímia Arouquense”, 1995, s/p; «Torreira, pela ardência do chão e a tremulina dos ares», como diz José TAVARES, “Notas Marinhoas”, IV, 1994, p. 39.
[27]. LOPES PEREIRA, “Murtosa Terra Nossa”, 2.ª ed., 1995, p. 26.


In "A Terra Marinhoa na Idade Média", Junta de Freguesia de Veiros, 2010, pp. 9-13
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